Seminário da Interfaces alerta para a escassez de motoristas

Texto: Carlos Moura
Data: 18 Junho, 2018

A falta de motoristas foi o tema de um seminário organizado pela consultora Interfaces Portugal e que serviu para alertar as entidades responsáveis para um problema que se verifica em toda a Europa, incluindo Portugal.

Baixos salários, pouco tempo para a família, estilo de vida desadequado para as novas gerações e elevadas exigências para o acesso à profissão são alguns dos fatores que contribuem para uma falta generalizada de motoristas, segundo apontam as conclusões de um seminário organizado pela consultora Interfaces Portugal. O evento, que contou com a participação de vários especialistas na área dos transportes rodoviários de passageiros e mercadorias, procurou identificar alguns dos motivos que justificam a falta de interesse das gerações mais novas pela profissão de motorista. Fernando Costa, diretor-geral da Interfaces Portugal, não tem dúvidas em afirmar que o “problema da falta de motoristas não tem solução”, acrescentando que também “não há mobilidade sem motoristas”. O responsável salienta que se tem dado um grande destaque à condução autónoma, mas “não se fala em motoristas”, que continuarão a ser “necessários”.

O diretor-geral da Interfaces adianta que um inquérito efetuado pela empresa indica que 52% dos inquiridos afirmam que o salário é o principal fator que contribui para a falta de motoristas. “Metade do problema é o vencimento, mas não só”, refere Fernando Costa, acrescentando que a outra metade está relacionada com um estilo de vida desadequado daqueles profissionais. Como alternativa para ir de encontro às expetativas geracionais sugere as “folgas e férias rotativas”.

A falta de motoristas poderia ser colmatada com a contratação de mais elementos do sexo feminino. E foi sobre o tema “Porque não há mais mulheres a conduzir camiões?” que a piloto Elisabete Jacinto partilhou a sua reflexão com a audiência. O preconceito da sociedade é um fator que afasta as mulheres desta profissão, assim como o facto do setor nem sempre estar conotado com a segurança. A piloto de camiões relembra que os veículos são bastante fáceis de conduzir, não exigindo tanto esforço físico como há alguns anos, e que as mulheres têm a vantagem de serem “muito concentradas”.

O seminário contou ainda com uma mesa redonda, que contou com a participação de Nélson Sousa, administrador da JLS e vice-presidente da ANTRAM, e de Pedro Gonçalves, do Departamento de Formação da ANTROP.

“A profissão não é tão valorizada nem tem o reconhecimento que teve no passado”, afirma Nélson Sousa, acrescentando que o estatuto de motorista se degradou. “Temos uma geração que não está a entrar no mercado de trabalho e também perdemos a melhor escola que tínhamos, que era o Exército”, refere o empresário, reconhecendo ainda que “a componente salarial também não é tão compensadora porque os motoristas fazem menos quilómetros devido à implementação da regulamentação social sobre horas de condução e descanso”. O vice-presidente da ANTRAM salienta que atualmente o “motorista é avaliado através de vários indicadores porque ser motorista não é só conduzir. As coisas não se medem apenas em consumo por cada cem quilómetros. As relações interpessoais têm vindo a ganhar importância e isso tem sido valorizado pelas empresas”.

Por sua vez, Pedro Gonçalves, da ANTROP, salientou que o principal obstáculo reside no tempo e no custo da formação dos motoristas”, o que vem agravar um problema que já tem uma dimensão mundial: “Nos próximos 15 anos, 30% dos motoristas atuais vão estar reformados”. Como principais fatores aponta o facto de muitos jovens não quererem estar longe da família nem durante muitos dias”.

Nélson Sousa, por seu lado, ressalva que, apesar dos avanços de sistemas como o platooning ou a condução autónoma, estes não podem ser encarados como uma ameaça ao motorista. “O fator humano continua a ser o mais importante”.

Os requisitos legais para o exercício da atividade de motorista profissional e a formação como instrumento para mitigar as consequências da falta de motoristas foram explicadas aos participantes no seminário da Interfaces Portugal por Maria Lurdes Bernardo, responsável do Departamento Habilitação de Condutores do IMT, e Maria Helena Nunes, diretora executiva do IPTRANS, respetivamente.

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